Número 6 -  Abril 2000

FEIRAS DE CIÊNCIAS:
produção estudantil, avaliação, conseqüências

Escribe: Prof. MSc Ronaldo Mancuso

Prof. de Ciências e Biologia (UFRGS, 1967); Especialista em Ciências Físicas (PUCRS, 1980) e Avaliação Educacional (FDRH/FSJT, 1981); Mestre em Educação e Ciência (1993, UFSC/SC); Coordenador do Centro de Ciências do Rio Grande do Sul-  CECIRS (1988- 99); Co- autor do livro "Clubes de Ciências – Criação, Funcionamento, Dinamização" – SE- RS/CECIRS, 1996. ; Coordenador do Programa Estadual de Feiras de Ciências do Rio Grande do Sul (1991- 99); Coordenador da Avaliação Participativa em feiras de ciências: nacional do Uruguai (1995) e internacional no Chile (1997); Criador e coordenador do Projeto Editorial do boletim Educação & Ciência, editado pela SE- RS em 1998; Palestrante em eventos nacionais e internacionais, tais como Simpósios, Encontros, Cursos, etc. ; Autor de diversos artigos publicados em revistas e boletins nacionais e internacionais, em temas de Educação Científica.


As Feiras de Ciências são eventos realizados nas escolas ou na comunidade com a intenção de, durante a exposição dos trabalhos , oportunizar um diálogo com os visitantes, constituindo- se na oportunidade de discussão dos conhecimentos, das metodologias de pesquisa e da criatividade dos alunos.

Ao iniciarem no Brasil, na década de 60, as primeiras Feiras Escolares serviram para familiarizar os alunos e a comunidade escolar com os materiais existentes nos laboratórios, antes quase inacessíveis e, portanto, desconhecidos na prática pedagógica.

A fase seguinte já retrata a utilização de aparelhos de laboratório para fins demonstrativos, puras repetições dos livros- textos ou das (poucas) experiências realizadas pelo professor.

Aos poucos, foram surgindo os trabalhos investigatórios normalmente executados em grupos onde, sob a orientação de um professor, os estudantes buscavam respostas às questões desafiantes do cotidiano ou de suas disciplinas, através de métodos tradicionais da ciência, notadamente o famoso "método científico", inúmeras vezes interpretado como único e infalível.

A produção científica estudantil atualmente exposta ao público pode ser resumida em (Mancuso, 1993):

1- TRABALHOS DE MONTAGEM (aparelhos/ artefatos demonstrativos) –Exs: maquetes, vulcões, eletroímãs, etc.

2- TRABALHOS INFORMATIVOS (demonstração de conhecimentos acadêmicos/alertas/denúncias) – Exs: Destilação de cana de açúcar, formação da chuva... AIDS, câncer de mama, tabagismo, etc.

3- TRABALHOS INVESTIGATÓRIOS (projetos onde costuma ocorrer produção de conhecimentos) que poderiam ser classificados com ênfase em:

3. 1- saúde pública (Ex: Aditivos-  o perigo nos alimentos, ...)

3. 2- educação ambiental (Ex: Restauração ecológica do aterro...)

3. 3- temas didático- pedagógicos (Ex: Uso de brinquedos no ensino de...)

3. 4- interesses comunitários (Ex: Relação: salário mínimo x cesta básica...)

3. 5- saber popular/investigações do cotidiano (Ex: Remédios caseiros para piolhos; tecidos e remoção de manchas de gordura, ...)

3. 6- interesse econômico/produtividade (Ex: Que marca de arroz rende mais?...)

3. 7- pesquisa de opinião (Ex: Preferência do povo em relação aos programas de televisão, ...)

3. 8- investigação descritiva/classificatória (Ex: Ciclo de vida do coleóptero do amendoim, ...)

3. 9- funcionamento do corpo humano (Ex: Cafezinho x ritmo cardíaco, ...)

3. 10- ativismo tecnicista (Ex: Efeito de vinagre/álcool/leite/água no crescimento do alface, ...)

3. 11- assuntos não- usuais (Ex: O poder das pirâmides na conservação da maçã, ...)

A partir das primeiras feiras foi criada a tradição de escolher e divulgar os "melhores" trabalhos, tarefa árdua de uma Comissão Julgadora formada por pessoas de reconhecido saber na comunidade, considerados neutros e, portanto, isentos de qualquer emoção por não terem envolvimento com os alunos, seus professores ou com as escolas participantes. Esse é o perfil da AVALIAÇÃO TRADICIONAL, em que as decisões devem ser acatadas como soberanas e incontestáveis e onde os resultados são divulgados na cerimônia final, sem discussão do "como" e do "porquê" tal comissão chegou a esse resultado. O efeito costuma ser bastante negativo para muitos, embora possa parecer positivo para alguns poucos. É estimulada a competição em detrimento da cooperação e da amizade, é fomentada a" ideologia do dom"(Bordieu, Passeron, 1982), sendo desconsiderado que toda avaliação carrega em si um componente subjetivo que faz com que uma mesma pessoa altere seus próprios critérios ao longo do processo a ponto de aprovar/classificar o que já havia reprovado/desclassificado antes e vice- versa (Fleuri, 1990).

O processo de AVALIAÇÃO PARTICIPATIVA foi criado e desenvolvido pela equipe do CECIRS-  Centro de Ciências do Rio Grande do Sul, a partir de l989, orientando- se por uma metodologia de pesquisa- ação- participante (Mancuso, l996). Desde então foi testado em muitas escolas do Rio Grande do Sul, de outros Estados e países, sendo modificado e aperfeiçoado pela participação constante dos segmentos envolvidos. A principal mudança, em relação ao modelo tradicional é a aceitação da avaliação dos alunos expositores, de seus professores orientadores e, sempre que possível, dos visitantes, além da avaliação dos especialistas . Os poderes antes concentrados na Comissão Julgadora são agora diluídos entre as diferentes comissões que são orientadas em reuniões prévias quanto aos objetivos, filosofia e dinâmica do processo avaliativo. As fichas, antes propriedade exclusiva dos especialistas da Comissão Julgadora agora são devolvidas aos alunos expositores antes do encerramento do evento para que tomem conhecimento de como e por quem foram avaliados. Todas as fichas preenchidas pelos avaliadores – sejam os especialistas, os orientadores, os alunos expositores, os visitantes – deverão ser identificadas e assinadas, eliminando a covardia do anonimato e permitindo que todos se exponham a uma crítica oportuna e responsável, na busca do diálogo preconizado por Freire(1984), oportunizando a avaliação da avaliação. Entre seus princípios norteadores destacam- se a confiança, o diálogo, a cooperação e a democratização das relações de poder.

Inúmeras são as conseqüências das Feiras nos dias de hoje, depois de três décadas de existência no Rio Grande do Sul. O resumo de um pesquisa (Mancuso, l990, l993) nos evidencia os seguintes benefícios/modificações nos professsores e alunos participantes:

crescimento pessoal / vivências / conhecimentos

(Exs: "maior visão do processo educativo", "amplia conhecimentos", "crescer intelectualmente", "aprender coisas e novas técnicas", ...)

comunicação / relacionamentos / intercâmbios

(Exs: "troca de idéias", "relacionamento com outras pessoas e realidades", "lidar com o público", "diminui a timidez", "intercâmbio cultural", ...)

hábitos / atitudes / habilidades

(Exs:"amizade", "abstração", "autoconfiança""iniciativa, "responsabilidade, amadurecimento", "equilíbrio", "atenção", "reflexão, análise", ...)

criticidade / capacidade de avaliar

(Exs: "desenvolve pensamento crítico", "auto- conhecimento" , "conhecer suas limitações, reconhecer o trabalho do outro", ...)

estímulo / envolvimento / motivação

(Exs: "maior envolvimento com o processo", "estímulo ao crescimento pela mudança", "cresce o interesse por coisas novas", "fica mais estimulado", ...)

criatividade / inovações

(Exs: "mais idéias", "visão diferente", "novos trabalhos", "consciência criativa"...)

politização

(Exs: "forma consciência crítica e responsável" , "favorece a tomada de decisões" "propicia lideranças", "amplia visão de mundo", "volta- se para interesses da comunidade", ...)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Bordieu, P; Passeron, J. C. A Reprodução-   Elementos para uma teoria do sistema de ensino. 2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.

Fleuri, Reinaldo M. Educar para quê? 3. ed. São Paulo: Cortez; Uberlândia: UFU, 1990.

Freire, Paulo. Ação cultural para a liberdade. 7. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.

Mancuso, Ronaldo. A Evolução do Programa de Feiras de Ciências do Rio Grande do Sul-  Avaliação Tradicional x Avaliação Participativa. Florianópolis: UFSC, 1993. Dissertação (Mestrado em Educação)-  Universidade Federal de Santa Catarina, 1993.

Feiras de Ciências-  Apostando no aluno para uma educação aberta e questionadora. Revista do Professor. Porto Alegre, 12(46), 1996, p. 12- 15.


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